segunda-feira, 22 de julho de 2013

Mídia e Política (parte 03/03)

A blogosfera se organiza

Com o passar do tempo, diversos “blogueiros progressistas” foram identificando afinidades entre si, além de compartilhar as dificuldades semelhantes. Naturalmente, eles aos poucos foram se organizando e se articulando entre si.
O principal e inicial meio de articulação foram as parcerias entre blogs. Em cada página é possível listar sites recomendados, em uma coluna fixa, com o link para o referido portal. Ou seja, cada blogueiro tem a possibilidade de divulgar o blog que desejar. É comum, portanto, que dois ou mais blogs divulguem seus links entre si. Por exemplo, o “Escrivinhador” possui em sua coluna fixa intitulada “Sites que indico” o link para diversas páginas, dentre elas o do “Blog do Miro”. Este, por sua vez, além de retribuir a parceria, destaca diversos outros sites, como o “Blog do Paulo Henrique Amorim”, que também possui uma lista de blogs recomendados, e assim sucessivamente.
A divulgação mútua também permitiu que aos poucos fosse criado uma espécie de rede, com blogs que convergiam. Dessa forma, o próprio conteúdo publicado por determinado blogueiro era replicado por outros parceiros. Ou seja, não só o link era divulgado, mas também os conteúdos produzidos. Como efeitos, pautas de grande relevância ganhavam a blogosfera em poucas horas.
A aproximação e cooperação entre os blogueiros fez surgir a proposta de realizar ações que fomentassem ainda mais essa união. E é justamente com essa intenção que em 2010 foi realizado o 1º Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, em São Paulo. No evento, foram discutidos diversos temas pertinentes à blogosfera e questões como “ameaças à internet; como financiar a blogosfera; e os desafios da internet”. O encontro serviu para aproximar ainda mais os blogueiros e buscar formas de articulação. Em 2011 foi realizado um novo encontro, em Brasília e em 2012 em Salvador. Neste último, foi organizado o Conselho Nacional da Blogosfera.
A partir desse evento, diversos outros foram realizados de forma independente, em níveis regionais, estaduais e municipais.
Outro elemento agregador e que auxilia a blogosfera é o Centro de Estudos de Mídia Independente “Barão de Itararé”, cujo objetivo principal é a luta pela democratização da comunicação. O Centro foi criado em 2010, sob a forma de associação civil, sem fins lucrativos e é formado por alguns dos principais “blogueiros progressistas”, como Altamiro Borges (presidente) e Rodrigo Vianna (diretor de comunicação). Desde sua fundação, o Barão de Itararé vem apoiando a blogosfera, sobretudo por possuir personalidade jurídica e sede própria – algo que os blogs carecem.
Dessa forma, o Barão de Itararé apoiou institucionalmente a realização dos Encontros Nacionais dos “blogueiros progressitas” e recentemente cedeu sua conta bancária para receber as doações propostas pelo fundo de emergência criado para socorrer blogueiros que perderam batalhas judiciais.

Embates entre blogueiros e a grande mídia
Não só na sociedade, mas também entre os blogueiros, a grande mídia pauta os principais temas a serem debatidos. O mais comum são os blogs questionarem e analisarem as matérias diárias exibidas pelos jornais e revistas impressas e virtuais. O inverso poucas vezes ocorre. No entanto, a força das redes sociais pode ser medida justamente quando elas pautam o conteúdo da grande mídia.
Nos últimos anos alguns episódios foram comemorados pelos blogueiros, que obtiveram o êxito de pautar a imprensa, em um verdadeiro embate envolvendo denúncias e contra-ataques. Abaixo, alguns dos principais episódios em que a blogosfera conseguiu pautar a grande mídia:

“Bolinha de papel do Serra”
Durante a corrida presidencial de 2010, os principais candidatos eram Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) - a petista liderava as pesquisas. Foi então que no dia 20 de outubro, o candidato tucano participou de um comício em um bairro do Rio de Janeiro, quando se deparou com militantes petistas. Houve bastante tumulto entre os grupos opostos, que se encerrou quando José Serra interrompeu a caminhada e partiu de helicóptero para um hospital, alegando ter sido agredido pelos petistas na cabeça.
O primeiro a noticiar o fato foi a Folha de São Paulo, com a manchete “Serra lavapancada na cabeça em confusão com militantes do PT no Rio” e afirmava que os petistas haviam arremessado um rolo de adesivos na testa do candidato.
À noite, todos os canais de TV replicaram a versão da Folha, exceto o SBT, que possuía imagens exclusivas onde aparecia Serra sendo alvejado por uma bolinha de papel e não por um rolo de adesivo. No dia seguinte, a blogosfera já difundia a versão do SBT, fazendo com que Serra fosse motivo de piada – o hashtag[1] “serrarojas” chegou ao ápice de primeiro lugar no Twitter mundial. O termo fazia referência ao goleiro chileno Rojas, que simulou ser atingido por torcedores em uma partida de futebol e, ao ser flagrado, foi banido do esporte.

Diante de tamanha repercussão sobre o caso, ainda no dia 21 o PT levou para sua propaganda eleitoral obrigatória as imagens do SBT e acusou o candidato tucano de forjar o acidente. No entanto, assim que as propagandas foram encerradas, recomeçou o Jornal Nacional, que ao longo de dois blocos apresentou uma nova versão para o episódio.
A Globo reconheceu a veracidade das imagens do SBT, mas afirmou que o que provocou o suposto ferimento em Serra não foi a bolinha de papel, mas um provável rolo de fita adesiva. Para sustentar essa tese, o Jornal Nacional apresentou um outro vídeo (supostamente posterior ao da bolinha de papel) e convidou o perito Ricardo Molina para fazer uma análise, onde sentenciou que Serra havia sido atingido por um objeto com aparência de um rolo de fita adesiva, após ter sido atingido pela bolinha de papel.

Minutos depois da exibição da reportagem da Globo, o jornalista Reinaldo Azevedo postou um texto em sua sessão no portal da Veja com o título “Pronto! A farsa do SBT e do PT está desfeita, agora pelo JN também. Lula mentiu! E o UOL, hein?”. No dia seguinte, 22, a Folha e o Estadão acompanharam a versão do Jornal Nacional, noticiando que Serra havia, de fato, sido alvejado pelo rolo de fita adesiva. O próprio SBT, em seguida, também concordou com a versão da Globo.
No entanto, a blogosfera reagiu e questionou as imagens analisadas pelo perito contratado pelo Jornal Nacional, acusando a emissora de tentar favorecer o candidato do PSDB. No portal Youtube é possível ver diversos vídeos que fazem uma análise sobre as imagens e afirmam que o tal objeto “circular, com aparência de um rolo de fita adesiva” nada mais era que a imagem desfocada da cabeça de uma pessoa que passava atrás de José Serra – em instante paralisado é possível comparar a imagem com um rolo, mas deixando a imagem correr, percebe-se que se trata de uma pessoa. Além disso, a sequencia do vídeo também mostra que após ser agredido pelo suposto rolo, José Serra não esboça nenhuma reação de dor, continua andando normalmente para só mais à frente aparentar ter sido atingido por algo.


Esse esforço dos blogueiros em tentar refutar a versão do Jornal Nacional foi abafado pela grande mídia, que ignorou a nova análise das imagens e manteve a versão do rolo de fita como fato. No portal da Globo, na página “Memória Globo”, sessão “Acusações falsas”, em matéria intitulada “O caso da bolinha de papel”, o grupo ratifica sua versão, apresentando uma sequencia de notícias, na tentativa de “esclarecer” o caso.
Na matéria, a Globo se apoia em notícias publicadas na Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo, e ataca a blogosfera:
“Nada disso impediu, contudo, que alguns blogues na internet passassem a difundir insistentemente que Serra não fora atingido por um rolo de fita adesiva e que esta versão, que teria sido desmascarada pelo SBT, fora inventada pela TV Globo para apoiar os tucanos. A seguir, um relato pormenorizado que desmonta, passo a passo, essa acusação.”
“O que dizem, portanto alguns blogues sobre o episódio é pura distorção, pura invenção. É algo injusto com os profissionais da Folha de S. Paulo, em primeiro lugar, com os profissionais da Globo, com os profissionais do Estado de S. Paulo e com os profissionais do SBT. A função dos jornalistas é esclarecer os fatos. É o que o Memória Globo faz aqui.”


“Ficha falsa da Dilma”
No dia 5 de abril de 2009, quando Dilma Rousseff era ministra do governo Lula e possível pré-candidata do PT para as eleições de 2010, a Folha de São Paulo publicou em sua capa a fotografia de uma suposta ficha policial de Dilma, com o título “Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Neto”.

Na matéria a Folha apresentava um suposto plano para sequestrar Delfim Neto, durante a ditadura militar. Tal ação seria executada pelo grupo VAR, com consentimento de Dilma. Essas informações tinham como fonte uma suposta ficha criminal de Dilma emitida pelo Dops (Departamento de Ordem Política e Social).
No entanto, em poucos dias a blogosfera reagiu e apresentou a versão de que tal ficha era falsa e não passava de uma montagem feita pelo blog "Tenuma" que faz oposição ao PT e apoia a Ditadura Militar. Os blogueiros, então, realizaram seguidas postagens, questionando a matéria da Folha e denunciando a farsa na manipulação da imagem, cuja ficha não existia.

Vinte dias depois da publicação da suposta ficha de Dilma, a Folha de São Paulo se retificou e justificou o equívoco. O jornal reconheceu que havia recebido a imagem por e-mail e que não tinha como confirmar a sua veracidade. Em seu editorial, a Folha admitiu os erros, apesar de afirmar que a ficha não era necessariamente é falsa:

O primeiro erro foi afirmar na Primeira Página que a origem da ficha era o ‘arquivo [do] Dops’. Na verdade, o jornal recebeu a imagem por e-mail. O segundo erro foi tratar como autêntica uma ficha cuja autenticidade, pelas informações hoje disponíveis, não pode ser assegurada -bem como não pode ser descartada.”


“Montagem da foto de Lula e Rose”
No começo de dezembro de 2012, a imprensa denunciava supostas irregularidades, como tráfico de influência, cometidos pela secretária Rosemary Noronha, no chamado “Caso Rose”. As informações sugeriam que a secretária possuía carta branca no governo, por ser amante do ex-presidente Lula. Apesar de algumas irregularidades terem tido fortes indícios de serem verídicos, o suposto relacionamento extra conjugal nunca foi confirmado.
No dia 4 de dezembro de 2012, o jornalista Ricardo Setti publicou em sua coluna na Veja uma fotografia onde posavam abraçados Lula, sua mulher Marisa e supostamente Rose. A imagem acompanhava o discurso midiático que sugeria a relação amorosa entre Lula e Rose.

No entanto, a foto não passava de uma montagem grosseira. Em poucos minutos a blogosfera denunciou o erro, apresentando a fotografia original e acusando o jornalista de mentir para atacar o ex-presidente Lula. Horas depois, Ricardo Setti fez outra publicação intitulada “Errei ao publicar foto falsa de Lula com ‘Rose’ e dona Marisa que, na verdade, era uma montagem”. Na postagem, ele admitiu o erro e se desculpou. Abaixo a montagem e a foto original publicada por Ricardo Setti em sua coluna no portal da Veja:


"A contradição de Celso de Mello"
Não apenas diretamente na grande mídia que ocorre o embate promovido pelos blogueiros. Em dezembro de 2012 a atuação da blogosfera promoveu impactos no Supremo Tribunal Federal. Na época, os ministros do STF já haviam condenado diversos réus do caso conhecido como “Mensalão”, dentre eles os deputados João Paulo Cunha (PT), Pedro Henry (PP) e Valdemar da Costa Neto (PR).
A partir daí, ocorreu um imbróglio judicial, fruto de uma dúbia interpretação do artigo 55 da Constituição. De um lado, a Câmara Federal alegava que somente ela poderia decidir pela cassação dos mandatos dos deputados condenados. Já o STF interpretava que também tinha esse poder de decidir pela perda dos mandatos. Tal questão, portanto, estava em discussão e votação no STF, onde quatro ministros seguiam a tese da Câmara e outros quatro seguiam a do Supremo. O voto de desempate, então, seria do ministro Celso de Mello, previsto para o dia de 12 de dezembro de 2012.
Celso de Mello, no entanto, já havia manifestado sua opinião, indicando que votaria à favor do STF de cassar os deputados, contrariando o desejo da ala governista e petista, que argumentava que só a Câmara teria tal poder.
Foi quando um dia antes da sessão decisiva, um personagem da blogosfera, de codinome Stanley Burburinho[2] postou em seu twitter o link público do TSE de um acórdão de um processo julgado em 1995, que trava sobre uma questão similar: a que Poder cabia o direito de cassar um parlamentar. Na época, o mesmo ministro Celso de Mello, ao interpretar o artigo 55 da Constituição concluiu que apenas o Congresso poderia cassar o parlamentar:
"É que o congressista, enquanto perdurar o seu mandato, só poderá ser deste excepcionalmente privado, em ocorrendo condenação penal transitada em julgado, por efeito exclusivo de deliberação tomada pelo voto secreto e pela maioria absoluta dos membros de sua própria Casa Legislativa.”
Essa decisão de 1995, portanto, era totalmente oposta ao que o ministro anunciou que tomaria em relação aos condenados do “mensalão”. Apesar de se  referir a um caso similar e a um mesmo artigo a ser interpretado, o acórdão público divulgado na blogosfera indicava uma contradição na decisão que o ministro estava prestes a tomar.
Em poucas horas, a blogosfera já havia rapidamente difundido os trechos e o link para o texto completo do voto de Celso de Mello em 1995. Deste modo, se pressionava o ministro a manter sua interpretação jurídica, caso contrário, uma mudança de voto seria visto com desconfiança e iria sugerir uma parcialidade suspeita.
O resultado da mobilização dos blogueiros e a difusão do voto antigo de Celso de Mello que veio à tona, ocorreu um dia depois: o ministro faltou a sessão decisiva. Alegando estar gripado, Celso de Mello faltou o restante da semana, paralisando a votação no STF. A suposta gripe foi amplamente questionada por aqueles que tiveram conhecimento sobre o voto contraditório do ministro e virou motivo de piada. Uma semana depois – passada a suposta gripe – Celso de Mello enfim deu o seu voto, favorável à cassação dos deputados.
A mudança de interpretação e o voto contraditório embasou ainda mais a tese dos blogueiros de que o julgamento do “Mensalão” sofreu influências midiáticas e políticas, e que fundamentos jurídicos básicos deram lugar a uma parcialidade suspeita. No entanto, mesmo sem alterar a decisão do ministro Celso de Mello, esse episódio animou os blogueiros, devido ao alcance e efeito provocados.

Referências:




[2] Stanley Burburinho possui um perfil no Twitter e Facebook. A sua identidade não é revelada. A partir de sua conta nas redes sociais, ele costuma postar informações privilegiadas.



[1] Hashtag é uma espécie de palavra-chave que os usuários da rede social Twitter utilizam para fazer referência a determinado assunto. Com base nessas hashtags, o próprio site divulga o ranking dos temas mais comentados.

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